Falsa entrevista de emprego com teste de código leva a roubo de R$ 34 bilhões
Criminosos usam processos seletivos falsos no LinkedIn e testes técnicos com repositórios maliciosos para invadir estações de desenvolvedores e desviar criptoativos.
Um esquema sofisticado de engenharia social voltado a desenvolvedores e profissionais de tecnologia expôs um dos vetores de ciberataque mais perigosos da atualidade: o uso de falsos processos seletivos para infectar máquinas corporativas. O desvio bilionário de US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões) em criptoativos da Binance teve origem em uma vaga fictícia anunciada no LinkedIn, na qual um engenheiro de software baixou um repositório de código malicioso durante um suposto teste técnico de contratação.
Segundo investigações técnicas e alertas emitidos pelo FBI e pela agência de cibersegurança americana (CISA), a ofensiva foi arquitetada por grupos ligados à Coreia do Norte, como o Lazarus Group. A abordagem envolve perfis simulados de recrutadores e chamadas em vídeo que reproduzem etapas reais de entrevistas. Na fase prática, o candidato recebe instruções para clonar um projeto em seu ambiente de desenvolvimento. O código, contudo, carrega scripts que instalam cavalos de Troia com acesso remoto, transformando a máquina da vítima em um ponto de entrada para a rede interna da organização.
Com a estação de trabalho comprometida, os invasores utilizaram ferramentas internas de inteligência artificial e credenciais legítimas do funcionário para movimentar permissões e assumir o controle dos sistemas de carteiras digitais. Especialistas em segurança apontam que, além do impacto financeiro, o incidente acende um alerta jurídico e operacional sobre os limites do monitoramento de dispositivos corporativos pela legislação trabalhista e pela LGPD, reforçando que a falha humana em golpes de alta complexidade raramente configura negligência isolada.
Para quem empreende e trabalha com tecnologia, o caso comprova que a engenharia social ultrapassou o phishing tradicional por e-mail e agora mira diretamente a rotina dos times de desenvolvimento. Empresas de qualquer porte devem implementar arquiteturas de confiança zero (zero trust), segregar ambientes de teste em contêineres e máquinas virtuais isoladas e proibir a execução de repositórios externos em computadores com acesso a ambientes de produção ou carteiras corporativas. Para os profissionais de TI, a regra imediata é nunca realizar desafios técnicos de recrutamento na máquina de trabalho.
Apuração e cobertura pela Redação do Expresso Empreendedor com base em relatórios setoriais e dados públicos da indústria.